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Bandeiras

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Adrienne3

Se eu fosse Antonio, eu teria me pedido pra preparar aquela ceia de Natal, porque sendo Antonio eu ia querer aglomerar as famílias, enfeitar árvore, comer panetone e tocar jingle bells.

Se eu fosse Antonio eu teria ligado pessoalmente pra mãe, irmão, sogra, cunhados, lagartixas e papagaios. Teria organizado aquele malfadado amigo secreto, listando os presentes e preestabelecendo os valores, porque Antonio é pura organização.

Antonio usa gravata e passa gel no cabelo.

Se eu fosse Antonio eu teria recebido todos com um sorriso aberto e um abraço sincero (Antonio fica todo emocionado com esse lance de família).

Se eu fosse Antonio eu ia achar natural que, naquele clima de confraternização, alguns se excedessem na bebida. “Imagina, é dia de festa”. “Uma vez na vida todo mundo tem direito”. Afinal, ser Antonio é isso aí. Tolerância pura.

Se eu fosse Antonio, quando meu irmão, ainda vestido de papai Noel, começasse a gritar com a mulher chamando-a de piranha e coisa e tal, acusando-a de dar mole pro idiota do Arnaldo, eu teria tentado pôr panos quentes. Daria um sorriso amarelo. “Afinal, é coisa normal”. “Casal é assim mesmo”. “Nada que uma conversa a sós não resolva”. E por aí vai. Ou ia, porque Antonio é assim. Antonio não dá bandeira, não assume vexame.

Se eu fosse Antonio, eu não teria como adivinhar que o irmão, sentindo-se contrariado e já de saco cheio, se transformasse num papai Noel ensandecido e, babando na barba torta, gritasse, bem no meio da sala, que de corno conformado bastava um na família.

Se eu fosse Antonio, eu não suportaria todos os olhares acesos em minha cara, mas ainda assim eu teria disfarçado, alegado insanidade temporária, sei lá, Antonio é inteligente pra cacete, tem desculpa pra tudo.

 

Mas até Antonio um dia desata as estribeiras.

 

Agora, eu sendo eu não podia prever é que Antonio não suportasse aquela informação e pegasse o irmão pela gola e o enxotasse pra fora de casa, aproveitando pra falar bem na cara de todos que eles eram uma cambada de parasitas e coisa e tal.

Eu sendo eu, ia ficar petrificada quando, uma vez a sós comigo, Antonio me aplicasse uma surra daquelas.

Eu sendo eu, jamais poderia esperar que seria ali mesmo, em cima da mesa, que ele me daria o melhor presente de Natal de minha vida.