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Desfazei de mim, Senhor.

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Claudio_thum1

Senhor, livrai-me da minha necessidade de ser visto.

Senhor, livrai-me da minha necessidade de ser objeto dos outros.

Senhor, que eu me contente em ser invisível, elemento da paisagem, ó Pai, me ajude a simplesmente estar, sem ficar todos os dias me perdendo no desejo, no plano infalível, de ser seguido, admirado, de existir para alguém, como se só para mim fosse a morte.

Senhor. Estas aí, Pai? Existes, no teu silêncio, sem uma conta no Instagram? Existes? O que fazes a essa hora, Senhor? Dormes?

Há como dormir, aí?

Aqui, não, Pai. Hortelã, alguém caminha sobre uma hortelã lá fora, vê? Ela chora, a pobre.

Senhor, escorre-me da minha vaidade, se tudo podes, elimina este repúdio ao silêncio, à luz apagada. Eu que não sou ninguém, perco meus dias querendo ser destaque. Pietá. Virgens, onde estão? Virgens suicidas não cedem à aflição. Elas se desfazem, ar. Como esferas de anêmonas, bolhas de sabão. Há um hálito frio que escapa de seus lábios antes mesmo do corpo esfriar, dar-se morto. O espírito já havia fugido dali.

Como me ater ao chão, Senhor? Ateu? Como, diante disso? Como, diante dessa fome? Fome da gula aguçada pelos outros sobre mim. Ser devorado todo, a dor das mordidas. Ódio, até o alvo eu aceito ser, sabe? Pois na sexta eles percebem querer que eu morra, mas seguram seu desejo até segunda pela manhã, quando, provavelmente, terão esquecido o ódio.

Como me ater ao chão? À narrativa, aos travessões da vida diária? Como ser leitor e não um cavador redator de túneis sem conexão entre si. Sobre mim. Para que todos se percam, Senhor, eu cavo de olhos fechados, sabe?

Eu me derrubo e me arrasto pelos cabelos pela rua de paralelepípedos. Tento me desvencilhar, mas logo me resumo a proteger o rosto. Não há quem me ajude, quem grite por meu desespero. Não há quem desafie a minha brutalidade comigo.

Acabemos com os rinocerontes, acabemos com os rinocerontes, porque bichos tão grandes não merecem eclipsar minha existência. Domestiquem os elefantes, para que eu suba sobre eles e possa acenar.

E onde isso vai dar, Senhor? Isso que de mim, sai? Onde? Esvaio e ninguém preenche. Onde dará? Se não me ouves, se não me atendes, e eu continuo comigo, aos outros, só.