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Eu queria lhe dar uma palavra de presente

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Imagens-Eis-o-mundo-de-fora-001

Eu queria lhe dar uma palavra de presente, uma palavra nova, não uma qualquer. Revirei os bolsos e as que eu trouxe entre os dedos estavam gastas, ando pelejando demais com elas em cima do papel. Na falta da novidade trouxe a palavra coração batendo na boca do estômago, estragando o sorriso da prudência.

Eu queria ser original mas as palavras são as mesmas desde que nos descobrimos, e tudo que posso é doá-las sem oferta, feito um órgão que não se vende, que não tem preço, tem apreço pela frase. Minha palavra se doa porque se dói pela língua doente, estribuchando dentro da boca; contorcendo-se contra os dentes feito animal buliçoso. Doa-se porque uma agonia me tira o prumo, me rouba o equilíbrio à beira do abismo, e desequilibrada caio e uso as asas emprestadas da loucura para fazer cócegas nas pedras.

Eu queria doar palavras feito quem se alia às pedras do despenhadeiro interno para quebrar o próprio telhado de cristal porque gosta do sol e não tem medo de tomar chuva. Mas esse querer se refugiou no futuro do pretérito, que é um tempo estúpido, uma abstração sem serventia, um desejo frustrado, por isso me agarro ao presente e ofereço o que trago nas mãos: a sujeira da vida e a intenção de lhe abismar.

Aceita?

Beijo,

da sua Remington Rand