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Havia 5 ou 6 moedas

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caroljan1

Havia 5 ou 6 moedas no meu bolso e eu caminhava ao lado dela e as moedas irritantemente tilintavam a todo momento e ela não me olhava, não fazia nada. Dei de dar passos mais abruptos e as moedas balançavam mais ainda e ela ia ao meu lado andando mais rápido, as moedas como um chocalho de criança que descobre a relação do som e do movimento mas ela não me olhava. Coloquei a mão no bolso e agitei as moedas com jeito de criança e esse era o único barulho na rua àquela hora tarde da noite e ela de maxilares travados e testa impassível não fazia nada. Assim eu demonstrava o nervosismo e queria tirar dela palavras. Estávamos perdidos porque a chuva enchera de poças bem fundas os buracos da calçada e as luzes desorientadas dos postes refletiam naquela água encardida. Ela se preocupava em livrar dos respingos a barra da saia e o papel em sua mão. Viramos à esquerda esquina sim, esquina não e à direita sempre que algum carro cruzava os semáforos vermelhos. Um padrão incognoscível mas que faz sentido aos desesperados.  Não sei se andamos em círculos, se cruzamos toda a extensão daquele inferno, se anoiteceu mais de uma vez, se vimos assombrações mas quando encontramos a casa, o cansaço veio à tona e desmoronei à porta. As moedas fizeram mais um ruído dessa vez o último e ela tirou do meu bolso o dinheiro que parecia uma miséria honesta. Aquela sarjeta elucidou a condição que era mais honesta do que miserável. Por fim abriram a porta e ela mostrou o papel que carregava no punho à sete chaves, deu as moedas e num tempo muito mais curto do que aquele todo que se passou desde que saímos de casa antes do sol levantar tínhamos de volta em nossos braços o menino inerte e adormecido. Nosso.