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Igualzinho ontem

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Periscópio


Um, dois, três, quatro, cinco…

Fui ensinado a não ter pressa, por isso conto. Tanto na ida quanto na volta, não se afobe, vá com calma. Uma hora sempre me perco, não a ponto de errar o caminho, mas de me enganar com os números. Você é muito avoado, Cadinho. É apelido, o nome real é Leocádio, culto a vovô. Todo dia esse reforço, essa coisa de eu ser distraído. Ficar atento é bom, filho, porque você chega livre de aborrecimento, mais cedo e sequinho em casa. Não gosto que ela fale disso. Minha mãe é assim… Quis me acompanhar várias vezes neste primeiro mês de trabalho.

O McDonald’s é pertinho de casa, uns 12 km em linha reta. Não quer mesmo que eu vá com você? Não, já tenho dezoito e posso andar sozinho até ali sem chateação. Quando voltar pra casa, me conte tudo. Tem funcionado, não tão bem porque me abstraio. Descobri faz dias o segredo pra isso não acontecer: é não acompanhar uma contagem diferente da minha, apesar disso, o encanto acontece a todo momento. Pois que sigo algumas conversas chuviscadas na orelha, aí saio do foco e deixo a hora estar. Quando dou por mim estou fora do tempo, de tudo, e nada aflora mais os nervos de mamãe do que os meus atrasos.

Se todo dia eu andasse como anda aquela mulher, por exemplo, que parece um periscópio, eu nunca me atrasaria, também não chegaria tão cedo a lugar nenhum. Reparei que muita gente caminha como eu, um pouco mais rápido, claro, só que não muito. Acho que essa gente também conta, e a gente que conta não é muito querida na multidão. Não lembro mais em qual número parei, três mil e sete?

Três mil e sete, três mil e oito, três mil e nove…

A coisa não anda nada bem no serviço. A voz arrastada é duma moça à frente. Sua amiga é toda audiência, eu também. Seguimos o drama de perto. Meu chefe me fez uma proposta horrível… Estou passada!, ela continua o revés.

Participar qualquer soma que seja da vida alheia é excitante, me faz um bocado maior no mundo. Entrei na sala dele pra informar sobre os orçamentos do mês e ele me disse que eu procedesse como achasse melhor, confio em você, falou. Boas histórias são como ímã, fico feito ferro, se ziguezagueiam ou atravessam a rua, eu vou atrás. Recebi como elogio, você sabe como é difícil impressionar a direção. Agradeci a confiança e fui me retirando. Entramos os três num mercadinho, a moça vai comprar a 9.31-louro-muito-claro-dourado. Tilintei o bolso e paguei uns trocos por um recheado. Falei que sou ótimo em ficar invisível? Quando segurei na maçaneta, ele pediu pra esperar um pouco. Que eu fechasse a porta. E começou a elogiar meu cabelo, minhas roupas, que essa calça honrava minhas curvas… Com a indiscrição meu sangue gelou e fiquei sem saber o que fazer. 

Isso é coisa de assédio, vou contar tudo quando chegar em casa, falando nisso, perdi a conta outra vez.

Ele disse que admirava muito mulheres como eu, com as ancas largas. Ancas, acredita? Cretino! A moça falava e quase ria, constrangida; eu e a amiga dela achamos muito sério. Depois, menina, pasme!, ele teve a coragem de me perguntar se eu tiraria tudo pra ele, frente e verso, queria só olhar… velho escroto, asquerosofilhodaputa, por cinco mil!

Cinco mil e um, cinco mil e dois, cinco mil e três…

A oferta, o jeito como ele me olhou… Devassada, tão desprotegida que usei a pasta de orçamentos como biombo. Pensei no meu marido, no que ele faria. E você volta a trabalhar nesse lugar?, queremos saber.

Esse velho é um corrompido, abordo os meus botões. Ele sente tesão acariciando, tentando a honestidade da moça. Se eu fosse marido dela ia lá e perguntava que história é essa de devassar a mulher alheia e depois enchia o velho de sopapos – vô Cadinho adorava essa palavra, vez em quando ameaçava alguém com ela, aliás, ele me ensinou várias palavras, assim, anciãs.

Lógico que deu um nó nas entranhas, claro que me senti humilhada. Ele ainda teve o atrevimento de pedir pra eu ficar quieta, “pense com paciência na proposta, e lembre-se de que o mercado é penoso pra secretárias não bilíngues”. Ai que ódio!

Nos saltos, elas apertam o passo, uma contagem diferente da minha, mesmo assim comboio as amigas um pouco mais. E o pior é que o cão atenta… Com meu marido desempregado, as contas vencendo, não sei se vou conseguir… A amiga percebe a intenção confusa na ideia da moça e fala apenas que ela calculasse bem os efeitos ou procurasse um advogado. Foi aí que a encurralada espichou o braço direito e em seguida o fura-bolo, corremos os três. Demorou nada pra eu lembrar minha mãe, não se afobe, vá com calma.

Enquanto o ônibus se distanciava com a história que eu nunca saberei o final, volto às contas. Parei em… Deixa eu ver… Melhor pegar do oito mil em diante.

Oito mil e um, oito mil e dois, oito mil e três…

Mais com pouco, no oito mil e sessenta, oito mil e sessenta e um, aguento o passo e passo a reparar no desenho das feições: que artista pode ser tão bom a ponto de criar tanta cara imperfeita e com tanta frequência? É de se admirar.

Ontem, se bem me lembro, contei doze mil mais ou menos. Hoje não sei quantos vão ser. Sei que faz um dia quente daqueles e as pessoas andam excessivamente rápido, não se preocupam em contar, transpiram ansiedade, e isso o médico diz que não é bom, ouço sempre, é de dar pena.

Olha aquela menina loira, suor escorrendo na vala do espinhaço, parou pra conversar com a morena de cabelo curto, tão curto quanto o meu. Ela parece tímida e o corpo dela, da morena, parece inteiro em desacordo, os braços cruzados a amassar os peitos… Ainda que envergonhada ela ri, todo mundo devia rir assim, com vontade. Tem vezes, no caminho, que as pessoas riem pra mim, de mim. As calçadas estão cheias de chiste, sabe o que é? É quando alguém faz troça da sua cara, aprendi isso hoje ouvindo um papo na lanchonete. E rebuliço, conhece? Na rua tá cheio, ó, toda hora tem um brigando com outro, olhando feio, nem sequer um bom-dia-como-vai.

Perdi a conta de novo, continuo na mesma calçada no entanto, sem pressa, no ritmo de costume. Sei porque passou por mim um rapaz agora, falando alto. Sai da frente, seu merda, tá contando os passos? Respondi na mesma altura, mas em outra cor, “Isso, isso mesmo! Como você sabe?”, eu disse. Inclusive perguntei se ele também estava, daí o cara saiu sacudindo as mãos pra cima.

Dez mil e quinhentos… Onze mil e quinhentos… Onze mil e seiscentos…

Já acolá a padaria do seu Raimundo Coqueiro. E a fralda começa a apertar, hoje ficou um pouco molhadinha, às vezes não dou conta de segurar a bexiga, é meio solta. Mando um aceno, ele devolve um semelhante. Lembranças a dona Regina. Regina é minha mãe. E, hoje, quantos vai dar, Cadinho?, ele se interessa. Ah, uns doze mil, seu Coqueiro, doze mil passos, igualzinho ontem.

Desenhos do autor.