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Mocinha

Posted by

alekarrumado

Após viúvos anos, Ieda anda afoita. É que o viço irrompeu seu ventre e empurrou fora o azedume do tempo. Expedito, que bate ponto na padaria e vive a cercar as meninas do posto, é quem está por trás de tanta euforia. Foi ele que desprendeu a renda que cobria a caixinha afetuosa de minha mulher. E o romance corre como o escapar dos dias.

Nem tudo, no entanto, vai bem, visto que há  pouco o rapaz queixou-se de algo constrangedor para Ieda. A meu ver, uma reclamação incabível. Ela compreende, já sabia que o namorado era pouco provido, só esperava a ocasião em que ele diria, como fez, sentir-se desamparado dentro de tanta frouxidão. Contrário de mim.

Eu me ajustava com perícia à vasta vulva de Ieda. Fui eu que a fiz grande assim, nunca protestei. Aliás gostava era por demais de flanar lá dentro. Entrava integral e de lá saía só quando os dois estávamos derreados. O efeito de tanto gozo foi um fluxo de criaturinhas, que por um tempo conteve nossa disposição.

Já se deslocaram alguns ano daquele dia. Eu caminhava certo na direção do quarto, querendo a generosidade de Ieda quando um aperto sanguíneo confundiu meus sentidos e cegou minha vista até última e gutural exclamação. Tornei-me imaterial.

Ieda foi submissa à minha ausência por um honesto período, antes de seu facho chamejar outra vez. E esse fogo era possível ver em seu olho buliçoso. Ela gostava do amor, e o primeiro a perceber que aquela alma queria reza foi Expedito. O rapaz, apesar de desfavorecido, considerando as dimensões de Ieda, era animado, um desajuste pequeno não a inquietou.

No dia seguinte à queixa, Ieda decidiu adaptar-se ao par, custasse qualquer recurso. Procurou D. Alda Raizeira, que cometia garrafadas de todo tipo na região. A mulher entendeu o caso e aviou uma gloriosa lavagem pra uso corrente. Ieda agora se asseia diariamente com chá de casca de aroeira, pra ficar mocinha.

Nossos filhos ouviram boatos sobre a mãe estar com uma doença nas partes. Ela cuidou de tranquilizá-los, disse que os filhos-de-candinha da cidade adoram falar mal, e que aquela infusão fazia um bem enorme à circulação, sendo esse o motivo de seus banhos íntimos inclusive. No fundo, pouco se importou com o desassossego dos outros, queria mesmo era enredar-se no corpo novo do namorado, o qual por um tempo parou de reclamar porque a artimanha funcionava como um encanto.

Além de mim, ninguém havia conhecido antes o desejo de Ieda. Era um poço de fundura injusta para Expedito. Quando a aroeira já  não cumpria a função, ele voltou a reclamar do préstimo de Ieda, que já não sabia como prosseguir afeiçoada a quem não conseguia mais agradar. Ela insistiu, pois assim é o amor desajustado, deixa uma das partes resistente a agravos, pronta para admitir sem desprezo múltiplas cusparadas da boca que venera. Me impressiona essa necessidade de ser feliz à força de qualquer artifício.

Semanas mais tarde, Ieda soube de uma cirurgia que deixava qualquer mulher novinha. A matéria de jornal explicava sobre traumas sofridos durante o parto, dizia coisas sobre o útero. Isso fazia muito sentido pra ela, que dera à luz seis filhos. Claro, só podia ser uma mulher traumatizada. Com uma cirurgia assim já resolveria dois problemas de uma vez, o trauma e a lassidão.

Cuidou para que a intervenção fosse marcada na capital. Tudo correria dentro dos conformes, em um único dia, sem espertar a curiosidade da vizinhança. Para os filhos, seria uma viagem rápida de comerciante.

Ieda passou de resguardo uma quarentena. Em grande expectativa. Expedito ficou dias sem aparecer, sabia o tempo exato em que ela seria liberada, e no fim desse período assomou a porta do quarto, impaciente, com a mão no pintainho, de olho comprido no regaço da velha; um moleque a cobiçar brinquedo novo. Ieda sentiu-se dulcineia, mesmo sabendo que o motivo da alegria estava rejuvenescido no meio de suas pernas.

O indivíduo se sentou na cama, amarrando-a em abraços entulhados, entre beijos ligeiros descalçou os sapatos e arrancou a roupa, depois estirou-se todo a fim de tomar o prometido, puxando o tronco de Ieda pra si, instante mesmo em que assoprei uma posição no ouvido dela, e ela escanchou-se como uma cavaleira, com a experiência que não tinha aos dezoito puxou macio sobre as pernas o tecido da camisola e quando já estava pronta o madraço enterrou sem comiseração. Ieda sentiu o tranco, mas a despeito disso, não rogou brandura, segurou as mãos do rapaz e, sem rédeas, pôs-se a galope.

Os dois se enviesaram na cama, pareciam medir forças. Num descontrole carnal, ela fez o que induzi e arqueou o corpo atirando-se pra trás. Ouviu-se então um barulho alto de madeira se partindo. Alarmado, sem cor nem volume, Expedito jogou de lado a mulher e quis escapar. Os dois encarnados de susto. Ele cambaleou, despenhando-se aos pés de Ieda. Segurava entre as mãos o pau pequeno, quebrado e cruento. O silvo do socorro soou na rua distante, mas isso cuidei também para que tardasse.

 

(Desenhos do autor;

e arte, Gustavo Deportado)