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O horário de Sônia

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sonia2

Aos sábados Valdir tirava para si três horas: das 15 às 18. A mulher saía com os dois filhos para praça, ou à casa da tia-avó paterna. O cão era aspergido com 5 gotas de Dramin. Trancava então todas as portas e cerrava as janelas com cortinas de veludo compradas em um brechó, jogo antigo, ainda do teatro pré-tecido-não-tecido. Ia para a suíte e tomava um longo banho com leite de rosas, fazia a barba, no rádio os graves do Osvaldo Montenegro. Borrifava Carolina Herrera pelos cantos do quarto, estendia o lençol branco. Estourava o vinho borbulhante. Acendia o incenso de cravo e vestia primeiro a calcinha, depois o sutiã, a camisolinha e, por fim, o penhoar. Punha nos pés uma chinela feita sob medida para seu pé 43. Saía pela casa, a cantarolar, preparava uma comidinha light no fogão, lambuzava o sorvete com as lágrimas durante um episódio de Grey’s anatomy. Ia assim, da faceirice à melancolia, até o horário da Ave Maria; quando se despia por completo contente de ter sido mais uma vez ela mesma, Sônia.