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O passo imperfeito do amor

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Foto_aleks

Tudo são ninharias acumuladas à sua vontade, posso dizer. Leve o que quiser. Não faço caso de nada, mas antes reconsidere, que meu peito já se botou a galope. Põe a mão aqui, sente? Agitado feito um beija-flor. Chega mais, vem, percebeu? Dilato o fôlego por você, e só descanso quando alegro seus desejos, você sabe, e quero continuar assim, encharcando você de afeto. Não, não se desate. Para agora de separar essas coisas. Larga a droga da mala, anda, não vou ficar bem sem sua dança desajeitada, fora de ritmo, fala alguma coisa, e não me olha assim, indulgente!
Então vai, leva seu cheiro daqui! Carrega a alegria que nunca foi por mim, não esquece as partituras, discos, livros, leva tudo, a minha vida, meus projetos, acaba de uma vez com isso. Oquei, deixa as lamentações, é só o que sabe fazer. Olha, vou enfartar, minha saúde é instável, você me conhece, larga a porra dessa mala…

E o baque da porta asfixiou meu transe. Ecoei seu nome até a inércia, enquanto a casa entristeceu três luas seguidas. Tempo em que remoí lembranças adiadas. Escureci apenas o que pude.
Num candente fiado da memória, restou sua imagem, que não perdi sequer em sono. Hoje encontrei um belo retrato seu, em claro-escuro, olhos ternos em facho, intenções ocultas num riso. Meti-o no bolso, enfiei-me na rua.
No bar da esquina virei uns tragos, pedi um litro de uísque corriqueiro. Queria extraviar meu dia em voltar e voltas ao redor de sua quadra. Invisível, na mesma dimensão dos infaustos que suportam suas cargas às oito da manhã, avancei sobre o meio-fio, entornado. Ninguém se reparava.
A certa distância, um cabelo negro ondeou acima de todos os ombros sob chapéu de palha natural. Um jeito inconfundível de pisar: perna esquerda três centímetros imperceptíveis menor que a direita, consonância irregular em ritmo honesto e gracioso.
O sobressalto adicionou excitação à corrente maciça que circulava zonza em minhas veias. E nesse caso arritmia. Além disso, surpresa não calculada. E mais ânsia estreitando a garganta. E pasmo. Por fim, a botelha deslizando pelo gargalo no momento justo em que o vento arranja asas pra foto que eu segurava, frouxo. No instante mesmo em que eu fiquei de cara, outra vez, com meu amor.

Fotos do autor.