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Partimos das palavras

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carol1

Partimos das palavras — escritas, faladas — donde emerge a comunicação. Eis: símbolos e sons convertidos em entendimento ou mesmo imbróglios. Sujeitos que se relacionam entre si, valendo-se dos diversos suportes de mediação já criados. Seja para pedir pão na padaria — pois o pão só é possível por causa das palavras — seja no gogó da soprano “Zertrümmert sei’n / auf ewig alle Baden / der Natur”, primeiro o mundo é desenhado em linguagem para daí ganhar a configuração factual. A linguagem constrói o mundo, o mundo consiste em fatos, diria Wittgenstein. Antes de todos: o verbo não flexionado, sequer alongado, para abranger galáxias expansíveis e pós-galáxias distantes, para ligá-las. Ser, estar, ficar, continuar, parecer, permanecer. Dei verbum. Deus, no entanto — e esta é uma certeza inculcada nas minhas caraminholas —, antes do verbo, suspirou. O suspiro! O mais expressivo dos sons, a única palavra concomitantemente para o bem e para o mal. O suspiro não se liga aos cognitivos palpáveis. Sobretudo porque é o suspiro uma palavra do ar. Por isso leve, gratuita e fugidia. Quando se suspira, o mecanismo da respiração alcança o máximo limite de seu funcionamento: ultrapassa-o como atividade orgânica, torna-se meio da arte. Passam pelos alvéolos pulsões de origens fantasmais, quando não fantasmagóricas, que morrem enquanto escapam do ser, enquanto vivem e são — sem permanecer, sem continuidade — sua própria fantasia abstraída em “não é mais”, “já foi”, “que restou?”. Restam espectros secos ou úmidos, os partícipes do início. A conden(s)ação do eterno ciclo e do contínuo retorno ao começo rarefeita em ar e não apenas: sublimada e sublimando até tornar-se palavra, que, na essência, configura-se em categorias que vão de palavra-pena a palavra-chumbo. Quis Deus criar o suspiro primeiro (e gratuito), para que tudo depois fosse uma composição de sopros: a orquestra da música do mundo — escrita, falada — que deslumbra frente à potência da criação. Palavras do ar. Palavras doadas.