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Réveillon Balzaquiano

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Claudio_thumdez13

Algo morreu em mim. Eu sei. Sinto o cheiro da carniça se esvaindo; isso, o acre já passou e agora está o nada-pré-capim. Alguém morreu em mim. Outro. Sou outro e há pouca memória do que fui, na passagem de bastão os dois se desencontraram. O jornalista viajante, o professor de literatura, o ator, deram lugar para um ermitão incrustrado em contas-para-pagar-e-afazeres. Não há culpa, não há ressentimento, pois os dois se baseiam em uma avaliação do passado, em memória, e em mim há um sol fantasma. E pensar que toda essa divagação brotou num desses testes de revista: você se vê como um jornalista de guerra? Um programador de computador? Um viajante? Quantos carimbos há no seu passaporte? Eu perdi foi a identidade, não haveria como tirar passaporte. Eu tenho a identidade, mas tão distante da foto, sabe? Quando sua cara vence, o caixa do banco desconfia. Essa não é sua assinatura, sua barba incompleta. Esse não é seu tom. Meu tom, de pele, de texto. Texto, no começo era algo espiritual, caminhada na cachoeira, era para mim, para não me perder de mim e foi ele um dos responsáveis por não me encontrar. Meu texto fraco devorado pelo texto dos outros, do outro. Doppelganger disforme. Tá aí um assunto sempre presente, o controle pelo outro, a possessão. Não cremos que fizemos isso com nossas vidas, não fui eu, não fui. Foi ele ou, no mínimo, um outro eu. Que não sou mais. Pai, foi a única coisa que esse outro fez de sorte, paternidade eu assumo, suas consequência, certa demência. Ambivalência, embora eu não goste de rimar, eu senti o sentido da ambivalência. A maçã, Eva, não coma a maçã ou se tornará ambivalente. E da ambivalência brota certa covardia diante da escolha impossível. Rachados. Somos todos, não sou único, mas quando foi que o garoto saiu pela porta dos fundos? Deixei de ser aquela ponte mística entre algo que eu não tinha explicação e o futuro. Parei e deixei que transformassem meus braços nessa engrenagem cinza. Por quê? Disse o terapeuta, por que quer ser como todos os outros? Eu disse que não queria e me tornei. Amigos se tornam inimigos, mata-se hoje quem ontem defendíamos, a complexidade de nossos caprichos. Sentamos nas certezas. Deixamos as pessoas morrerem, até que morremos também. Quero pegar minhas qualidades e renovar meus pecados, meus medos. E saber que a busca é fundamental, e saber que nem tudo deve ser descartável, tudo é exercício. As coisas acabam, mas quando? Quando chegamos a divisão perfeita? Imprecisa. Os desejos entre a anáfase e a telófase, a metáfora, decidindo entre o humano e o divino: qual dos dois morreu? De quem era a carniça? O que será esse capim que brota em minhas costas, querendo virar minha cabeça para o espelho?